Correção da semana 4 do PET 1 7º ano - Língua portuguesa 2021









A orelha de Van Gogh (fragmento)


Moacyr Scliar


Estávamos, como de costume, à beira da ruína. Meu pai, dono de um pequeno armazém, devia a um de seus fornecedores importante quantia. E não tinha como pagar.
Mas, se lhe faltava dinheiro, sobrava-lhe imaginação... Era um homem culto, inteligente, além de alegre. Não concluíra os estudos [...]. Os fregueses gostavam dele, entre outras razões porque vendia fiado e não cobrava nunca. Com os fornecedores, porém, a situação era diferente. Esses enérgicos senhores queriam seu dinheiro. O homem a quem meu pai devia no momento era conhecido como um credor particularmente implacável.
Outro se desesperaria. Outro pensaria em fugir, em se suicidar até. Não meu pai. Otimista como sempre, estava certo de que daria um jeito. Esse homem deve ter seu ponto fraco, dizia, e por aí o pegamos. Perguntando daqui e dali, descobriu algo promissor. O credor, que na aparência era um homem rude e insensível, tinha uma paixão secreta por Van Gogh. [...]
Meu pai retirou na biblioteca um livro sobre Van Gogh e passou o fim de semana mergulhado na leitura. Ao cair da tarde de domingo, a porta de seu quarto se abriu e ele surgiu, triunfante:
– Achei!
Levou-me para um canto – eu, aos doze anos, era seu confidente e cúmplice – e sussurrou, os olhos brilhando:
– A orelha de Van Gogh. A orelha nos salvará.
O que é que vocês estão cochichando aí, perguntou minha mãe, que tinha escassa tolerância para com o que chamava de maluquices do marido. Nada, nada, respondeu meu pai, e para mim, baixinho, depois te explico.
Depois me explicou. O caso era que o Van Gogh, num acesso de loucura, cortara a orelha e a enviara à sua amada. A partir disso meu pai tinha elaborado um plano: procuraria o credor e diria que recebera como herança de seu bisavô, amante da mulher por quem Van Gogh se apaixonara, a orelha mumificada do pintor. Ofereceria tal relíquia em troca do perdão da dívida e de um crédito adicional.
– Que dizes?
Minha mãe tinha razão: ele vivia em um outro mundo, um mundo de ilusões.
[...] A questão, contudo, era outra: – E a orelha?
– A orelha? – olhou-me espantado, como se aquilo não lhe tivesse ocorrido.
Sim, eu disse, a orelha do Van Gogh, onde é que se arranja essa coisa. Ah, ele disse, quanto a isso não há problema, a gente consegue uma no necrotério. O servente é meu amigo, faz tudo por mim.
No dia seguinte, saiu cedo. Voltou ao meio-dia, radiante, trazendo consigo um embrulho que desenrolou cuidadosamente. Era um frasco com formol, contendo uma coisa escura, de formato indefinido. A orelha de Van Gogh, anunciou, triunfante.
E quem diria que não era? Mas, por via das dúvidas, ele colocou no vidro um rótulo: Van Gogh – orelha.
À tarde, fomos à casa do credor. Esperei fora, enquanto meu pai entrava. Cinco minutos depois voltou, desconcertado, furioso mesmo: o homem não apenas recusara a proposta, como arrebatara o frasco de meu pai e o jogara pela janela.
– Falta de respeito!
Tive de concordar, embora tal desfecho me parecesse até certo ponto inevitável. Fomos caminhando pela rua tranquila, meu pai resmungando sempre: falta de respeito, falta de respeito. De repente parou, olhou-me fixo:
– Era a direita ou a esquerda?
– O quê? – perguntei, sem entender.
– A orelha que o Van Gogh cortou. Era a direita ou a esquerda?
– Não sei – eu disse, já irritado com aquela história. Foi você quem leu o livro. Você é quem deve saber. [...]
- mas não sei – disse ele, desconsolado. – Confesso que não sei.
Ficamos um instante em silencio. Uma dúvida me assaltou naquele momento, uma dúvida que eu não ousava formular, porque sabia que a resposta poderia ser o fim da minha infância. Mas:
E a do vidro? – Perguntei. – Era a direita ou a esquerda?
Mirou-me aparvalhado.
- Sabe que não sei? – Murmurou numa voz fraca, rouca. – Não sei.
E prosseguimos, rumo à nossa casa. Se a gente olhar bem uma relha – qualquer orelha, seja ela de Van Gogh ou não - Verá que seu desenho se assemelha ao de um labirinto. Nesse labirinto eu estava perdido. Eu nunca mais sairia dele.

Disponível em http://www.academia.org.br/abl/media/RB53%20-%20Prosa.pdf. Acesso em: 19 mai.
2012.

Retirado do PET 2 - 2021 7º ano 

 ATIVIDADES 

1. Proposta de produção 

No conto estudado “ A orelha de Van Gogh”, o narrador participa da história que conta. Você  vai escrever um conto onde o narrador também será o personagem, mas no seu conto o narrador não mais será o filho do dono do armazém e sim o credor inflexível. A intenção é que o  leitor conheça os acontecimentos contados por um outro olhar. O mistério será desvendado.  Use sua criatividade e arrasa! 

2. Nesse momento você fará o planejamento e elaboração do texto. 

Leia o conto “A orelha de Van Gogh”, novamente e reflita: 

• Como será que foi a conversa entre o credor e o pai do narrador? Imagine o que eles conversaram, como os personagens se comportaram, tudo isso sob o ponto de vista do credor.


As reflexões abaixo podem ajudá-lo, preencha o quadro abaixo: 


Como foi a recepção do pai pelo credor?

O credor recebeu o pai do garoto com desconfiança, pois não era costume receber um de seus devedores em casa. 

Como foi a recepção do pai pelo credor?

Ele tentou ser simpático e portou-se como se fosse íntimo do homem para tentar envolvê-lo em sua lábia.  

Como o pai fez a proposta?

Ele disse que também era um admirador do pintor e que só faria a proposta por "consideração" ao credor. 

Quando o credor ouviu a proposta e viu a orelha,  que seria o pagamento da dívida, como ele com portou?

Ele ficou desconfiado, pois tal artefato teria valor inestimável. 

Qual foi o sentimento e reação essa ação provocou no credor?

Ele se sentiu subestimado pelo pai do garoto. Isso trouxe certa indignação ao homem. 

Como o credor descobriu que tudo era uma  armação? O que ele fez nesse momento?

Ele já havia desconfiado da oferta, pois ninguém, em sã consciência,  se desfaria de um artefato de tão grande valor sentimental e financeiro. Em seguida, percebeu que aquela era a orelha errada. 


3. Não se esqueça que uma narrativa do gênero conto possui uma estrutura que deverá ser seguida: 

a) Introdução; 

b) Desenvolvimento; 

c) Climax; 

d) Desfecho. 

4. Você poderá pensar em outros aspectos, como o perfil dos personagens como: 

a) Características dos personagens; 

b) Qual personagem terá nome? 

c) Como o credor contará o conflito? Ele será sensível ou não? 

5. Não esqueça do tempo e espaço e de que o conto é uma na narração curta e deverá ser escrita na  1ª pessoa, o credor será o narrador.


6. Escolha um título criativo. Agora é com você! Estou ansioso para ver o resultado!


Mais valem duas orelhas na moleira do que uma num pote: Em resposta ao conto A Orelha de Van Gogh


Era uma tarde como outra qualquer, estava em casa curtindo um dia de descanso, quando a contrariedade veio bater a minha porta. Ao abri-la, lá estava um dos meus devedores... Será que ele não sabe que não costumo receber essa gente aqui em casa.

Ele disse:

- Boa tarde.

Olhei-o de cima a baixo -  não precisei de muito esforço -  ele era um homem pequeno e magricelo. Deixei transparecer em meus olhos o quanto a sua visita me incomodava. 

Respondi um "boa tarde" com tamanha indiferença para que ele se "tocasse" e fosse logo embora. 

- Olá meu amigo! Disse o sujeito enquanto adentrava à minha casa, sem que fosse convidado. 

 - Estamos "juntos" faz muito tempo e, em nome de todos esses anos de parceria, venho fazer uma, irrecusável, proposta! 

 - Diga logo! Respondi, enquanto puxava os fios de cabelo do meu bigode (costume que tenho  quando estou impaciente). 

O homem veio com uma história de que havia recebido de herança a orelha que Van Gogh cortara num momento de crise. Ele se disse admirador do pintor, mas que em nome da nossa parceria de tantos anos, ficaria feliz em me presentear. Pequei o objeto e, enquanto eu o avaliava, o sujeito fez a seguinte proposta: 

 -  Vejo que o senhor tem vários artefatos valiosos nesta imensa sala. Contudo, nenhum deles possui valor semelhante ao que lhe darei sem pedir nada em troca. Eu poderia vender a orelha  a um colecionador qualquer, mas não faria tanto sentido quanto dá-la  a um admirador tão assíduo como o senhor. Não poderia aceitar que, em contrapartida, perdoasse a, quase insignificante, dívida que tenho com o senhor. Mas se Vossa senhoria insistir... 

Antes que o homem fechasse a sua matraca, atirei o objeto pela janela. Pensa que sou tolo? Esta, definitivamente, não é a orelha de Van Goh. Além de ser a orelha errada, ele não usava brinco. Saia logo daqui ou a próxima orelha dentro de um frasco será a sua. O pequeno homem,  mais que depressa, pulou pela janela. Afinal: mais valem duas orelhas na moleira do que uma num pote. 


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